O vereador Tião Farias divulgou um artigo em que descreve a trajetória de luta pela democracia do PSDB. Confira, a seguir, o texto do parlamentar.
Quem defende o PSDB?
Os mais velhos sabem como foi difícil conquistar a democracia no Brasil.
Após quase cinco séculos como colônia, império e república, só em 1988 o
país inscreveu em sua Constituição, com todas as letras, o estado
democrático de direito.
O que tivemos antes foram apenas breves períodos de frágeis franquias democráticas, como nos anos JK. Na Carta de 88, ao contrário, estão presentes quase todos os pressupostos de uma organização
social e política modernas.
A partir dela garantimos direitos individuais, coletivos e difusos de valor inestimável. Por exemplo, o relevante papel do Ministério Público, o defensor da cidadania. E muitos outros avanços, como os códigos de defesa da criança e do adolescente, do consumidor e dos
idosos, e todo um aparato jurídico voltado para a preservação ambiental.
A Constituição de 88 é a certidão de nascimento da democracia brasileira.
Conquistada a democracia, é obrigação de todos defendê-la, praticá-la e
aperfeiçoa-la. Nesse quadro assume papel crucial o fortalecimento dos
partidos políticos.
Muitos deles nestes vinte anos ficaram pelo meio do caminho, por não terem conseguido afirmar-se. Sobrevivem, e se revigoram pleito a pleito, os que pautam sua ação por seus compromissos programáticos,
pela coerência e pela coragem de manter suas posições, principalmente na adversidade.
Quando o PSDB foi fundado, em junho de 1988, faltavam pouco mais de três meses para a eleição municipal daquele ano. O partido lançou a candidatura de Franco Montoro, que ficou doente e foi substituído por José Serra.
Foi eleita Luiza Erundina, em turno único – uma surpresa, pois o favorito até quinze dias antes do pleito era Paulo Maluf. Quatro anos depois, o PSDB lançou Fábio Feldman – e nova derrota, com a eleição de Maluf.
Mais quatro anos, em 1996, e já com Mario Covas governador, o candidato a prefeito era de novo José Serra, igualmente derrotado, desta vez por Celso Pitta. Em 2000, com Covas em segundo mandato, o derrotado foi o seu vice, Geraldo Alckmin – e, a vitoriosa, Marta Suplicy.
Só em 2004, em sua terceira postulação, José Serra elegeu-se prefeito, marcando assim a primeira vitória do PSDB em pleito municipal após cinco tentativas e 16 anos na fila.
Isso demonstra, e hoje podemos avaliar melhor, que o PSDB acertou ao
perseverar. Quem concorre em eleições só pode esperar um de dois
resultados – ganhar ou perder.
O PSDB perdeu quatro seguidas mas, enquanto isso, afirmou-se como partido e foi aos poucos conquistando a preferência do eleitorado. Na mesma época Covas perdeu a eleição de 1989 para presidente da República e a de 1990 para governador do Estado.
Às vésperas de comemorar o seu vigésimo aniversário de fundação, o PSDB é a maior força política de São Paulo, a ponto de o atual governador, José Serra, ter sido eleito, a menos de dois anos, já no primeiro turno.
Os tucanos paulistas e paulistanos podem se orgulhar de haver construído um partido forte, identificado com as aspirações da maioria dos brasileiros que aqui vivem.
A história do PSDB na capital paulista demonstra que a trajetória do partido foi forjada em cima de quatro derrotas para os seus principais adversários – o malufismo e o petismo -, mas que agiu corretamente ao se apresentar, sempre, com candidatura própria.
Foi essa persistência na adversidade que permitiu ao partido construir a sua identidade. Ganhar ou perder é do jogo democrático. Correr riscos calculados também faz parte da estratégia política de médio e longo prazos.
Contrariamente, omitir-se, esconder-se do eleitor, é negar a afirmação, é faltar à responsabilidade.
Por isso creio que age corretamente o comando nacional do DEM quando insiste na candidatura do prefeito Gilberto Kassab. Este pleito representa a primeira grande oportunidade do ex-PFL de conhecer o seu verdadeiro tamanho em São Paulo.
Aliado a vários partidos – inclusive o PSDB – em diferentes eleições, o DEM sempre esteve a reboque de seus parceiros. Talvez tenha chegado a hora de exibir o seu próprio cacife eleitoral.
Se a decisão partidária for a de concorrer com Kassab, o DEM estará iniciando em São Paulo a mesma trajetória, que pode ser longa, cumprida há vinte anos pelo PSDB e por todos os partidos que correram riscos, ganharam ou perderam, mas se consolidaram como representantes de parcelas do eleitorado.
Nada contra coligações. No pleito municipal do próximo dia 5 de outubro
certamente estaremos lado a lado com nossos aliados. O que não me parece razoável é que o PSDB o faça em posição de inferioridade. Seria negar a sua história e abdicar da sua densidade política, frustrando seus eleitores.
Tive o privilégio de, durante muitos anos, acompanhar de perto a trajetória de Mario Covas. Aprendi com ele que, na política como na vida, o conceito de honestidade vai muito além do simples "não roubar". Covas sempre defendeu o fortalecimento dos partidos, a começar pelo seu. Fez da coerência a marca da sua conduta.
E, da defesa do bem comum a primeira das prioridades, mesmo em
detrimento da vida pessoal e de suas eventuais preferências. Ouço muito a expressão "que falta faz o Covas", e concordo com ela.
Hoje, em meio às discussões sobre a próxima eleição municipal na capital, o PSDB sente falta de quem o defenda, a começar pelos que deveriam ter a obrigação de fazê-lo.
Eventuais divergências internas são até saudáveis, mas sinto falta, na atual discussão sobre candidatura, de uma ação clara e firme da direção
partidária.
À falta dessa posição, ganham destaque na imprensa declarações
esparsas de tucanos a pregar uma inusitada ausência de candidatura própria, hipótese nunca imaginada antes, nem mesmo nos tempos de derrota certa.
Vejo, consternado, o meu partido sangrar em público justamente no momento em que vende saúde. Noto, nesse movimento, a intenção deliberada de alguns de sabotar a candidatura de Geraldo Alckmin, nosso candidato natural – e, não por acaso, líder em todas as pesquisas de intenção de voto.
Em compensação observo nas bases partidárias, na militância que já sofreu muito, e que constituem a verdadeira força do PSDB, o mesmo vigor de sempre e o mesmo orgulho de quem aprendeu as lições do passado. Ainda bem.
Tião Farias é vereador em São Paulo pelo PSDB.
